Um extrato de termo de fomento assinado pela Secretaria de Cultura de Mato Grosso expõe mais uma vez a duvidosa relação entre emendas parlamentares e associações opacas. Desta vez, o deputado estadual Faissal destinou R$ 800 mil, em julho de 2024 — ano eleitoral —, para a AMC – Associação Mato-Grossense de Cultura, com a justificativa de promover ações culturais e esportivas, incluindo curso de corte e costura em bairros da capital. A entidade é presidida por Marcos Levi de Barros, músico que até dezembro passado ganhava pouco mais de R$ 2 mil mensais como trompetista da banda da Secretaria de Educação de Várzea Grande e hoje lidera uma associação que já assinou mais de R$ 57 milhões em fomento com a Secel.
O recurso tem como objetivo o projeto “Jovens em Ação”, que pretende atuar nos bairros São João Del Rei, Passaredo, Três Barras e Pedra 90, por meio da estrutura da chamada Associação Política Jovem – APJ. No entanto, até agora, não se conhece nenhum resultado concreto. O Blog do Popó encaminhou 20 perguntas ao deputado Faissal cobrando explicações sobre sua relação com a AMC, os critérios de escolha da entidade e os resultados sociais entregues. Nenhuma das perguntas foi respondida até a publicação desta matéria — talvez porque não haja mesmo o que responder.
Uma das perguntas mais simples é também uma das mais graves: o deputado Faissal poderia apresentar a lista das famílias beneficiadas com essa emenda de R$ 800 mil? Se o dinheiro público está sendo gasto, que se prove onde e como. A ausência de transparência é um sintoma preocupante de um modelo de repasse que privilegia entidades que orbitam sempre as mesmas relações políticas e funcionam, na prática, como canais permanentes de drenagem de recursos sob justificativas genéricas como “ações culturais”.
Enquanto isso, Mato Grosso assiste a um ciclo viciado: deputados alimentando entidades convenientes com recursos públicos em plena pré-campanha, e secretarias agindo como balcões de repasses milionários sem qualquer exigência concreta de resultado social. A relação entre Faissal e a AMC precisa ser investigada com seriedade — porque cultura não pode continuar sendo sinônimo de conveniência eleitoral nem de enriquecimento político disfarçado.



