Enquanto o debate sobre o ajuste das contas públicas volta ao centro das atenções no país, um dado incômodo escancara a assimetria das cobranças: o mercado financeiro, principal credor da dívida pública brasileira, exige rigor fiscal, mas não participa da partilha do sacrifício. Segundo o advogado e ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos, não se trata de calote, mas de coerência: se o setor financeiro concentra a maior fatia da dívida, por que não é chamado a contribuir no reequilíbrio fiscal?
No orçamento de 2025, os gastos com o programa Bolsa Família estão estimados em R$ 158 bilhões, enquanto os juros e serviços da dívida pública vão consumir R$ 1,6 trilhão — dez vezes mais. Além disso, o governo federal abrirá mão de R$ 543,6 bilhões em renúncias fiscais, muitas das quais beneficiam justamente os grandes conglomerados. Dados do Tesouro Nacional mostram que 29,8% da dívida pública é devida a instituições financeiras, 24,1% a fundos de pensão, e 22,3% a fundos de investimentos. Ainda assim, o foco do debate recai sobre cortes em políticas sociais e investimentos produtivos, enquanto os grandes credores seguem imunes às pressões por ajuste.
“Não é racional imaginar que se corte Bolsa Família ou recursos para o setor produtivo e não se discuta sequer descontos nos pagamentos da dívida”, alertou Marcelo Ramos. O questionamento é direto: por que o país aceita sacrificar os mais pobres e os investimentos públicos, mas mantém intactos os privilégios dos que lucram com os juros da dívida?


