Passaram-se 498 anos desde que Fernão de Noronha, em 1502, iniciou a extração do pau-brasil em nome da Coroa portuguesa. Meio milênio depois, a paisagem mudou, o nome da mercadoria mudou — hoje é a soja —, mas o modelo econômico continua espantosamente o mesmo: extrativista, concentrador de renda, destruidor de ecossistemas e perpetuador de desigualdades. A lógica colonial de saque e exportação permanece viva, sofisticada pelos mecanismos do agronegócio moderno, mas ancorada na mesma estrutura de poder e privilégio que marcou o nascimento do Brasil como colônia.
Ao longo desses cinco séculos, o país atravessou sucessivos ciclos econômicos primário-exportadores: o pau-brasil (séculos XVI e XVII), a cana-de-açúcar (séculos XVI a XIX), o ouro (século XVIII), o café (século XIX), a borracha e o cacau (fins do XIX e início do XX), até chegar à soja, cuja explosão no século XXI consolidou o Brasil como celeiro do mundo — mas também como campo de batalha ambiental e social.
Cada um desses ciclos criou suas próprias oligarquias: os senhores de engenho, os barões do café, os coronéis da borracha, os barões do cacau, e hoje, os barões da soja. Nomes como José Rufino Bezerra Cavalcanti (cana), Barão de Iguape (café), Delmiro Gouveia, Barão de Mauá,Coronel José Ferreira Sobrinho (borracha), Leolindo Rocha (cacau) e os grandes latifundiários do Centro-Oeste e do Matopiba que dominam a produção de soja, mostram como o poder permanece nas mãos de poucos — e sempre os mesmos: brancos, grandes proprietários, politicamente conectados.
O Brasil, ao longo desses quase 500 anos, naturalizou uma estrutura onde a riqueza de poucos é financiada pela pobreza de muitos. A desigualdade social não é um acidente: é projeto. O lucro da exportação se concentra, enquanto a miséria se alastra. Segundo dados recentes, o Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo, e os novos “coronéis” da soja concentram terras, recursos e poder político como no tempo dos engenhos.
Enquanto isso, o custo ambiental se agrava. A expansão da soja avança sobre o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal, impulsionando o desmatamento, os conflitos fundiários e o colapso climático. É a mesma lógica do pau-brasil, agora com drones, tratores e capital estrangeiro. A floresta que ontem sangrava pau-brasil, hoje cede lugar a monoculturas e agrotóxicos.
Nada mudou? Mudou a tecnologia. Mudaram os nomes dos ciclos. Mas a essência — extrair, exportar, excluir — continua intacta. O Brasil permanece sendo, cinco séculos depois, uma máquina de concentração de riqueza e produção de desigualdade. E talvez seja hora de perguntar, com honestidade: até quando o país seguirá sendo colônia de si mesmo?


