Como jornalista com formação também em Gestão Pública , observo com atenção a forma como a linguagem é utilizada no debate público e político brasileiro. A língua portuguesa, viva e dinâmica, sempre acolheu neologismos, gírias e expressões populares que, com o tempo, podem ou não ganhar legitimidade nos dicionários. É nesse contexto que surge a polêmica em torno da linguagem neutra, especialmente o uso do pronome “todes”, tão atacado por setores da extrema-direita, e a curiosa invenção do termo “imbroxável”, popularizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, expoente maior da própria direita radical.
Se analisarmos com rigor, veremos que nenhuma das duas palavras existe na norma culta da língua portuguesa. “Todes” é um neologismo de matriz política e social, proposto como forma inclusiva de linguagem por grupos ligados à luta LGBTQIA+. Já “imbroxável” nasceu de um discurso de bravata, para enaltecer a virilidade do então presidente. Ambos são frutos da criatividade linguística, mas não encontram respaldo nos dicionários oficiais.
A contradição, porém, salta aos olhos: enquanto a esquerda progressista não criminaliza nem demoniza a criação de “imbroxável”, entendendo-a como um neologismo político e até caricatural, a extrema-direita insiste em transformar o “todes” em uma espécie de inimigo da língua portuguesa, associando-o a uma ameaça cultural ou ideológica. Ora, se aceitarmos a invenção de Bolsonaro como legítima no plano popular, como recusar a legitimidade do “todes” no mesmo nível de expressão linguística e social?
Mais grave ainda é que a palavra “broxa”, de onde deriva “imbroxável”, é uma expressão polissemântica reconhecida na língua portuguesa: pode ser substantivo comum (designando impotência ou instrumento de pintura) ou adjetivo coloquial (algo sem graça, fraco, decepcionante). Já “imbroxável” não existe. Assim, Bolsonaro criou um neologismo sem respaldo normativo, mas que foi celebrado por seus seguidores. A ironia é que os mesmos que aplaudem essa invenção zombam e demonizam o uso de “todes”. Essa incoerência não é apenas linguística, mas política e moral, e expõe a desmoralização da extrema-direita, que aplica pesos e medidas diferentes conforme sua conveniência ideológica.


