Cuiabá, 15 de janeiro de 2026 – A extinção da Agência de Regulação de Serviços Públicos Delegados de Cuiabá (ARSEC) em fevereiro de 2025, sob o pretexto de gerar economia aos cofres públicos, resultou, na prática, em um aumento de quase 30% na folha de pagamento de sua sucessora, a Agência de Fiscalização e Regulação dos Serviços Públicos Delegados (CUIABÁ REGULA).
Uma análise detalhada das folhas de pagamento obtidas via Portal da Transparência revela que, enquanto o número de servidores diminuiu, os gastos com salários dispararam, impulsionados principalmente pela criação de novos cargos de diretoria com remunerações que ultrapassam R$ 30 mil.
Em janeiro de 2024, a folha de pagamento da ARSEC totalizava R$ 190.121,74 para 21 servidores. Quase dois anos depois, em novembro de 2025, a CUIABÁ REGULA, com 19 funcionários — dois a menos que a antiga agência — apresenta uma despesa mensal de R$ 246.419,50, um acréscimo de R$ 56.297,76 por mês. O aumento contradiz a justificativa de economicidade utilizada para extinguir a ARSEC e se torna ainda mais acentuado quando se analisa a cúpula da nova agência.
⸻
A explosão dos salários da diretoria
A reestruturação administrativa foi particularmente generosa com os cargos de alto escalão. A despesa total com diretores saltou de R$ 44.492,28 na ARSEC para R$ 121.480,84 na CUIABÁ REGULA — um aumento impressionante de 173%.
Se antes os três diretores da ARSEC representavam 23,4% da folha, hoje os quatro diretores da nova agência consomem 49,3% de todo o gasto com pessoal.
Dois casos emblemáticos ilustram essa nova realidade salarial:
• Vanderlúcio Rodrigues da Silva, que presidia a ARSEC com salário de R$ 14.830,76, foi mantido na nova estrutura como Diretor Regulador e teve sua remuneração mais que dobrada, passando a receber R$ 30.370,21 — aumento de 104,8%.
• Carlos Rafael Demian Gomes de Carvalho, que não constava na folha da ARSEC em janeiro de 2024, foi nomeado para um dos novos cargos de Diretor Regulador com o mesmo salário de Vanderlúcio: R$ 30.370,21. Ele se notabilizou por sua defesa enfática do prefeito Abílio Brunini durante o processo de cassação na Câmara Municipal, o que levanta questionamentos sobre a natureza técnica de sua nomeação.
⸻
Análise comparativa: ARSEC x CUIABÁ REGULA
Uma análise detalhada dos dados revela uma clara mudança na distribuição dos recursos. Enquanto a ARSEC possuía um quadro mais equilibrado, a CUIABÁ REGULA concentra seus maiores salários no topo da pirâmide hierárquica.
Indicadores comparativos:
• Folha total:
ARSEC (Jan/2024): R$ 190.121,74
CUIABÁ REGULA (Nov/2025): R$ 246.419,50
Variação: +29,6%
• Número de servidores:
21 → 19 (redução de 2)
• Salário médio:
R$ 9.053,42 → R$ 12.969,45
Variação: +43,3%
• Gasto com diretores:
R$ 44.492,28 → R$ 121.480,84
Variação: +173%
• Percentual da folha com diretores:
23,4% → 49,3%
Curiosamente, dos quatro servidores que transitaram da ARSEC para a CUIABÁ REGULA, apenas o ex-presidente Vanderlúcio teve aumento. Os outros três remanescentes tiveram redução média de 11,5% ao serem realocados em cargos de menor remuneração na nova estrutura.
⸻
O silêncio da nova agência
A extinção da ARSEC foi justificada pelo prefeito como uma medida necessária para otimizar os trabalhos de regulação e fiscalização, considerados ineficientes. No entanto, passados quase doze meses da criação da CUIABÁ REGULA, não foram apresentadas medidas relevantes ou melhorias significativas nos serviços delegados que justificassem a reestruturação e o consequente aumento de despesas.
O que se observa, até o momento, é uma agência mais enxuta em número de servidores, porém substancialmente mais cara, com poder decisório concentrado em diretores de salários duplicados.
A manobra, vendida como um passo para eficiência e economia, revela-se, através dos números, um arranjo que onera os cofres públicos e beneficia um pequeno grupo de aliados políticos, deixando um rastro de questionamentos sobre transparência e a real motivação por trás da mudança.


