A recente prisão de Raffael Amorim de Brito, acusado de assassinar o sargento da Polícia Militar Odenil Alves Pedroso, expôs uma contradição incômoda na política de segurança pública de Mato Grosso. Embora a captura tenha sido resultado de uma força-tarefa entre os estados de Mato Grosso e Rio de Janeiro, o episódio foi conduzido publicamente como uma vitória pessoal do secretário de Segurança Pública, coronel César Roveri, que ocupou o centro do discurso oficial, enquanto o comandante-geral da Polícia Militar permaneceu praticamente invisível no anúncio do desfecho do caso.
O protagonismo assumido pelo secretário chama atenção quando confrontado com indicadores amplamente divulgados por órgãos oficiais, que colocam Mato Grosso entre os estados líderes em feminicídios nos últimos dois anos consecutivos. O contraste entre o tom de comemoração pela prisão — ocorrida após longo período de buscas — e o silêncio institucional diante da escalada da violência contra mulheres levanta questionamentos legítimos sobre prioridades, coerência e responsabilidade na condução da política de segurança pública estadual.
Outro ponto sensível é o avanço das facções criminosas no estado ao longo dos últimos sete anos de governo Mauro Mendes, realidade reconhecida inclusive por episódios recentes em que manifestações culturais e apresentações artísticas foram impedidas por imposições do crime organizado, situação que evidencia perda de controle territorial em determinadas áreas. Nesse cenário, a tentativa de transformar uma prisão tardia — ainda que relevante — em vitrine política soa descolada do quadro geral enfrentado pela população mato-grossense.
Internamente, nos corredores da própria corporação, cresce o desconforto com a forma como o comandante da Polícia Militar foi reduzido a um papel secundário, reforçando a percepção de que a instituição estaria sendo instrumentalizada por projetos pessoais. A ausência do comando da PM no discurso público reforça a leitura de que a segurança pública passou a ser tratada como plataforma eleitoral, especialmente diante das especulações sobre a intenção do secretário disputar uma vaga na Câmara Federal ainda este ano.
A pergunta que fica não é sobre a importância da prisão — que é indiscutível —, mas sobre o uso político do episódio. Quando resultados pontuais são elevados a troféus eleitorais, enquanto problemas estruturais persistem sem resposta, o risco é transformar a segurança pública em marketing, e o comando da Polícia Militar em mero figurante de um projeto que olha mais para as urnas do que para a realidade das ruas.


