A estreia de Cuiabá no calendário do automobilismo brasileiro gerou um relatório com observações críticas do diretor de prova da CBA e revelou que os trabalhos começaram em um autódromo que “não tinha todas as condições” para a realização de corridas, que uma prova aconteceu sem comissários técnicos por problemas de logística e que os boxes alagavam com facilidade. Estas informações constam em documentos aos quais o GRANDE PRÊMIO teve acesso em sua íntegra e mostram os problemas de organização da Vicar, a empresa que controla e promove a Stock Car e outras categorias.
A capital do Mato Grosso entrou no cronograma da temporada 2025 como a primeira corrida noturna da história da Stock Car, entre 13 e 15 de novembro, o que atraiu muitos olhares da comunidade do esporte a motor nacional. A avaliação do diretor de prova, Renan Casetta, no entanto, apontou uma série de problemas de precariedade das estruturas que foram relatadas na pasta de prova referente à etapa.
Segundo o relatório do diretor, na quinta-feira, dia 13, as primeiras atividades foram atrasadas devido à indisponibilidade das câmeras do circuito. A solução foi distribuir comissários desportivos ao redor da pista para o início das sessões. A Stock Car tinha previamente dois treinos livres para aquela noite, mas acabaram cancelados antes mesmo dos fortes ventos que danificaram estruturas e reduziram o shakedown programado.
Casetta também fez críticas à Secretaria de Provas, que “não tinha conhecimento de como gerar o grid de largada e tampouco dispunha de material básico, como folha sulfite”.
A avaliação do diretor de prova após o primeiro dia de atividades em Cuiabá foi a de que “o autódromo ainda não tinha todas as condições para realização da prova”, com “muitas entradas para a pista desprotegida, falta de segurança no perímetro do circuito com facilidade para invasões”. Casetta chegou a mencionar que “por diversas vezes” a direção teve de “com o carro de resgate retirar espectadores de áreas proibidas e sem segurança alguma”. Ainda, o dirigente relatou que a “área de box alagava com facilidade mesmo com uma pequena chuva”.
De fato, uma forte chuva que adiou a corrida sprint após a realização da classificação inundou o autódromo e danificou parte da estrutura. A água invadiu até mesmo a área da cozinha, algo que provocou contaminação de alimentos e fez com que centenas de pessoas ficassem intoxicadas, soube o GRANDE PRÊMIO.
O diretor de prova seguiu o relato fazendo críticas à Vicar, que “não disponibilizou veículos básicos de aluguel para toda a equipe desportiva”, que as vans “saíam em horários que esse time nem sempre poderia usar” e que na quarta-feira, os comissários aguardaram “mais de 65 minutos por uma van para retornar ao hotel após mais de 14 horas de trabalho”.
Casetta, então, fez uma longa queixa. “Essa contratação inviabiliza horários dos quais a CBA não deveria ser incluída como terceirizada, gerou atrasos à chegada ao autódromo na sexta-feira, tendo em vista que o primeiro horário da van não seria ideal a este time desportivo, que normalmente não tem horário fixo para chegar e sair do autódromo. E mais estranho [é] que foge do básico que temos em qualquer categoria nacional que participei e de todos os integrantes do time desportivo e técnico.”
A reclamação continuou com ponderações sobre o último dia de atividades em pista e trouxe uma revelação: a de que a corrida de uma das categorias de suporte da Stock Car aconteceu sem membros da equipe da CBA. “No sábado, com a mudança repentina de cronograma, adiantando os horários em 90 minutos sem aviso prévio, a categoria Turismo Nacional iniciou a prova sem que comissários técnicos estivessem no autódromo, pois estavam aguardando a van no hotel e, assim, gerando esse problema grave para a execução da prova.”
No check-list de itens diversos, Casetta assinalou com um “NOK” (não estão OK) problemas em telas de proteção, postos de sinalização e PSDP (Posto de Sinalização da Direção de Prova), e segurança.
Na etapa anterior em Campo Grande, a nona do campeonato, disputada entre os dias 24 e 26 de outubro, Casetta já havia descrito como “ruim” os itens asfalto da pista, lavadeiras, áreas de escape, proteção de pneus, postos de sinalização e PDSP , e sala de direção de provas (torre).
A seguinte pergunta foi feita à CBA diante de tais fatos: “GRANDE PRÊMIO apurou que a direção de prova se queixou da qualidade do asfalto, das lavadeiras, das áreas de escape e dos pontos de segurança do autódromo de Campo Grande e atestou que o autódromo de Cuiabá não dispunha das condições para a realização das corridas da Stock Car e das demais categorias por questões de segurança e pelo rápido alagamento das instalações, como a dos boxes. Confirma estas informações?”
A resposta foi enfática: “Não, não foi isso o que aconteceu! Pelo contrário, os relatórios oficiais nada citam a respeito.”
Outra questão se seguiu desta forma: “GRANDE PRÊMIO apurou que a corrida da Turismo Nacional em Cuiabá aconteceu sem a presença de comissários técnicos por não terem conseguido deslocamento ao autódromo. Confirma esta informação?”
Novamente, uma negativa contundente da CBA — com os trechos em maiúscula mantidos do original: “Obviamente que não. Isso NUNCA aconteceu. Vale esclarecer que, de fato, houve o atraso de alguns membros da equipe de comissários NO PRIMEIRO TREINO LIVRE – E APENAS NO PRIMEIRO TREINO LIVRE – por questões logísticas pontuais e a equipe se apresentou momentaneamente desfalcada. Mesmo assim, o presidente do Conselho Técnico Desportivo Nacional, Fábio Greco, juntou-se ao time de comissários para suprir excepcionalmente as ausências. Na atividade de pista posterior, o time já estava novamente completo.”
As mesmas perguntas foram feitas à empresa que promove os campeonatos da Stock Car e da Turismo Nacional. A resposta foi a de que “a CBA não notificou a Vicar sobre essa ocorrência, porque não é verdadeira”.
Eis as provas da documentação obtida pelo GRANDE PRÊMIO de relatórios oficiais que comprovam as informações supramencionadas e negadas pela CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo):


Na série de reportagens sobre a Stock Car 2025, o GRANDE PRÊMIO revelou que as vistorias dos comissários técnicos apontaram irregularidades de segurança dos carros em dez das 11 etapas do campeonato e os detalhes do processo movido por Bruno Baptista contra a categoria.
Documentos expõem outros problemas técnicos
A etapa de abertura da temporada foi caótica não apenas para pilotos e equipes, que receberam peças atrasadas — com algumas que, inclusive, foram adaptadas dos carros de 2024, como o tanque de combustível —, mas também para os comissários técnicos, apurou o GRANDE PRÊMIO.
Ainda durante a rodada inaugural do campeonato, disputada no início de maio, foi relatado que “os comissários técnicos não puderam realizar determinadas vistorias que julgavam necessárias, pois não foi [sic] disponibilizada para a equipe técnica os dispositivos necessários para realização da conferência”. No mesmo dia, foi constatado que a balança e os cases da técnica da CBA foram disponibilizados apenas às 14h35, apesar de as atividades começarem às 7h. O trabalho de vistoria também foi prejudicado por falta de equipamentos.
As questões técnicas tiveram reflexo na programação do fim de semana na pista paulistana. No relatório da direção de prova, assinado por Casetta, consta ainda que “durante o final de semana houveram [sic] diversas mudanças de horários para todas as atividades além de cancelamentos por motivos técnicos nos carros que não são de responsabilidade dessa confederação”.

Casetta ainda registrou que a organização contou com “pessoas com pouca experiência para uma prova que necessita de profissionais que tenham currículo para executar as funções. Senti falta ainda na sexta-feira de alguém que pudesse gerenciar os problemas locais com mais velocidade que precisamos para execução dessa prova”, chegando até a citar problemas com a equipe de sinalização dos boxes, que liberou um carro (não identificado no documento) para a pista com o pit-lane fechado durante a classificação enquanto profissionais de resgate executavam tarefas no traçado.
Na segunda etapa, realizada em Cascavel, entre 22 e 25 de maio, o relatório técnico também revelou que “a balança da técnica CBA completa só foi apresentada na sexta-feira às 07h”, mas “faltavam as travessas para adequação à nova bitola do carro”. O documento ainda completou afirmando que “a necessidade dos comissários técnicos é de que a balança e instrumentos estejam disponíveis de acordo com o início das atividades na quinta-feira”.
Além disso, “o ‘box’ da CBA não estava em condição boa de trabalho”. O documento citou problemas como desnível, pedras e irregularidades que inviabilizaram a montagem da balança e piso zero, o que impediu que as equipes de aferissem os carros para o início das atividades oficiais.
Outro ponto levantado, desta vez no documento da direção de prova, foi a presença de dois postes de luz em locais inapropriados, entre as curvas 3 e 4, que impediram a realização das atividades de pista na sexta-feira (23). Segundo Casetta, “no mesmo dia à noite, o promotor ordenou a prefeitura a retirada dos mesmos e foi atendida prontamente para a realização do evento na sexta-feira sem mais problemas de segurança”.

Para a terceira etapa, que aconteceu entre 5 e 8 de junho no Velopark, os comissários técnicos também frisaram que “a ferramenta utilizada para a conferência da cambagem foi emprestada”, e que “é extremamente importante que a CBA tenha em mãos uma ferramenta própria para realizar a vistoria do item”. O art. 87.3 do CDA (Código Desportivo do Automobilismo) exige que os comissários utilizem instrumentos aprovados ou aceitos pela CBA/FAU.
Entre 17 e 21 de julho, na etapa do Velocitta, quarta do campeonato, Helio Castroneves passou por momento de alta tensão: no Q1 da classificação, teve problemas mecânicos no carro, que gerou fumaça para dentro no cockpit. O piloto teve dificuldades para sair do carro e precisou ser amparado pelos médicos do circuito por inalar fumaça. Segundo declaração do médico oficial da Stock Car, Dino Altmann, ao sportv, Helio sofreu leve intoxicação, mas não chegou a se queimar.
No relatório da direção de prova, Casetta relatou a presença de somente dez bombeiros no autódromo. O Código Desportivo da CBA não determina um contingente mínimo de profissionais para as competições, mas o número — que se repetiu nas outras duas visitas ao Velocitta e em Campo Grande — é metade do registrado na maioria das etapas do campeonato. A única exceção, além das já citadas, foi o Velopark, onde 46 bombeiros estavam à disposição. Cuiabá e Brasília não tiveram o número de profissionais registrados. Não houve menção ao incidente de Castroneves no relatório.
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