A ascensão da deputada estadual Janaína Riva nas pesquisas de intenção de voto para o Senado por Mato Grosso revela mais do que apenas capital político acumulado ao longo de uma década de mandatos consecutivos: sinaliza um possível repeteco do fenômeno eleitoral de 2002, quando Serys Slhessarenko (PT), então também deputada estadual, surpreendeu ao conquistar a segunda vaga ao Senado, derrotando o ex-governador Dante de Oliveira (PSDB), que renunciara ao cargo para disputar a eleição com ampla aprovação popular. À época, Dante era considerado imbatível e liderava com folga a disputa — até que a articulação política de Blairo Maggi, candidato ao governo, alavancou Jonas Pinheiro ao primeiro voto e transformou Serys no voto útil contra o grupo tucano.
Janaína, única mulher na Assembleia Legislativa e a mais jovem entre os nomes citados, surge como figura de consenso transversal. Ocupa hoje o segundo lugar nas pesquisas tanto na modalidade estimulada quanto na consolidada, e exibe musculatura para dialogar com parcelas significativas da direita — inclusive com eleitorado bolsonarista — mesmo sendo filiada a um partido de centro. Com 42,6% na preferência consolidada, ela ameaça diretamente a candidatura do governador Mauro Mendes, que lidera com 61%, mas pode ver seu apoio evaporar caso o eleitorado mais conservador se divida entre ela, José Medeiros — hoje o nome mais associado a Jair Bolsonaro em Mato Grosso —, e o produtor rural Antônio Galvan, bolsonarista raiz e ex-presidente da Aprosoja Brasil, que também se apresenta como pré-candidato ao Senado. A divisão do campo da direita e da extrema-direita em ao menos quatro candidaturas ajuda a esvaziar a força eleitoral de Mauro Mendes e aumenta o potencial de reviravolta na disputa.
Esses três candidatos travam, de fato, uma disputa por hegemonia no campo bolsonarista — o que pode fragmentar votos e abrir espaço para surpresas. No outro extremo do espectro político, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD), desponta como favorito no campo progressista e de centro, onde poderá enfrentar o ex-governador Pedro Taques (sem partido). Hoje, Fávaro aparece com vantagem nesse segmento, reforçada por sua visibilidade nacional e pela atuação constante no estado, além do apoio do governo Lula.
A conjuntura atual guarda paralelos perigosos para Mendes. Assim como Dante em 2002, Mauro chega ao fim do segundo mandato com aprovação em declínio e um grupo político em desarmonia. A falta de alianças amplas pode deixá-lo vulnerável a uma movimentação em torno do “segundo voto” — papel que Janaína Riva parece pronta para assumir. A depender do desempenho de Medeiros, Galvan e da configuração final das chapas, o governador pode ser vítima do mesmo erro de cálculo que custou a Dante de Oliveira sua última eleição majoritária.
Embora o nome do senador Jayme Campos (União Brasil) seja frequentemente citado nos bastidores, seja para buscar a reeleição ou uma candidatura ao governo, seu silêncio até aqui impede qualquer análise mais concreta sobre seu papel na eleição de 2026.


