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Entre a lacração e o vazio administrativo: por que Cuiabá paga o preço da imaturidade política do prefeito

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A reunião realizada na AEDIC – Associação das Empresas do Distrito Industrial de Cuiabá, convocada pelo presidente Kennedy Salles, expôs um problema mais profundo do que o debate pontual sobre IPTU ou o fim da isenção fiscal no Distrito Industrial de Cuiabá. O encontro revelou o choque entre duas lógicas incompatíveis: de um lado, empresários buscando previsibilidade, argumentos técnicos e segurança jurídica; de outro, um chefe do Executivo que parece confundir liderança pública com embate performático. O prefeito Abílio Brunini desperdiçou a oportunidade de explicar, convencer e dialogar. Optou, mais uma vez, por tensionar, personalizar e transformar o espaço institucional em palco para recortes destinados às redes sociais.

Aqui é preciso ser direto: governar não é lacrar. Administração pública exige método, dados, escuta e coerência. Quando um prefeito, diante de questionamentos legítimos, reage deslocando o foco para ataques pessoais, como ocorreu no confronto com a empresária Margareth Buzetti, ele sinaliza fragilidade argumentativa. Isso não é “estilo”; é sintoma. A literatura sobre liderança pública é clara ao afirmar que líderes eficazes enfrentam o mérito do debate, não terceirizam erros nem substituem políticas públicas por narrativas morais simplistas. Ao agir de forma diversa, Abílio reforça a percepção de despreparo técnico e emocional para a complexidade do cargo que ocupa.

O episódio também revela um ponto cego perigoso: a transformação sistemática do contraditório em inimigo político. Ontem, a esquerda; hoje, empresários, lojistas e setores produtivos que integraram sua base eleitoral. Essa lógica binária — “quem discorda está errado ou age de má-fé” — pode render engajamento digital, mas é incompatível com a governança urbana. Cidades não se administram por guerra cultural, e sim por coordenação entre interesses diversos. Quando o prefeito acusa genericamente a existência de “empresas fantasmas” sem apresentar relatórios técnicos, fiscalizações concluídas ou autos de infração, ele substitui o Estado de Direito por insinuações políticas. O efeito imediato é a corrosão da confiança institucional e o afastamento de investimentos produtivos.

Há ainda uma contradição estrutural que precisa ser enfrentada com honestidade intelectual. Enquanto o discurso público aponta supostos privilégios do setor produtivo, a prática administrativa indica expansão da máquina pública, criação de cargos, sobreposição de funções e acomodação de aliados e parentes. Esse descompasso mina qualquer autoridade moral para falar em “justiça fiscal”. Sem um plano claro de desenvolvimento econômico, sem estudos de impacto tributário transparentes e sem canais permanentes de diálogo com quem produz, o resultado tende a ser previsível: conflito contínuo, insegurança jurídica e perda de governabilidade.

O alerta que emerge da reunião da AEDIC vai além da pauta do dia. Cuiabá corre o risco de atravessar anos sob uma gestão orientada mais pela performance digital do que por políticas públicas consistentes. Governar exige abandonar a lógica do deboche e assumir a do argumento; menos encenação e mais planejamento; menos confronto e mais liderança qualificada. Se essa inflexão não ocorrer, o problema deixará de ser apenas do prefeito — será de toda a cidade.

Popó Pinheiro
Jornalista e Gestor Público

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