Enquanto Interlagos custa R$ 12 milhões por ano para ser mantido, projeto de Mauro Mendes em Cuiabá terá manutenção estimada em R$ 36 milhões anuais, mesmo sem receber Fórmula 1 e com iluminação especial para corridas noturnas
Fontes ligadas ao projeto do autódromo em construção no Parque Novo Mato Grosso — já apelidado de Parque dos Bilionários — estimam que a manutenção do espaço custará R$ 3 milhões por mês, o que representa R$ 36 milhões por ano. A projeção foi feita com base nos custos do Autódromo de Interlagos, em São Paulo, considerando as exigências técnicas da FIA, os padrões internacionais para corridas noturnas e os custos logísticos mais elevados de operar uma estrutura semelhante no coração do Centro-Oeste.
Para efeito de comparação, Interlagos custa cerca de R$ 1 milhão por mês, ou R$ 12 milhões por ano, mesmo sendo um circuito mais antigo, com estrutura consolidada e um dos mais tradicionais da Fórmula 1 mundial. O autódromo mato-grossense, por sua vez, ainda está sendo construído, mas já nasce com 83 hectares (oito a mais que Interlagos), pista de 4,3 km em padrão FIA Grau 1, iluminação especial para eventos noturnos e uma estrutura de hospitalidade e lazer voltada para a elite do automobilismo e do agronegócio.
O investimento total previsto para a obra ultrapassa os R$ 3 bilhões em dinheiro público. Apesar de o governo apresentar o projeto como um “complexo de lazer e eventos”, tudo indica que se trata de um espaço pensado para grandes eventos privados, com heliporto, camarotes de luxo e acesso restrito, em uma área nobre cercada por mata cênica e longe da população comum.
Enquanto isso, a realidade do povo mato-grossense é outra: postos de saúde sem insumos, escolas com teto caindo, bairros dominados pela violência e servidores cobrando direitos básicos. A manutenção milionária do novo autódromo — mais que o triplo do custo de Interlagos — será bancada com o dinheiro dos impostos pagos por quem jamais poderá assistir a uma corrida ali.
O Parque dos Bilionários é o retrato mais cruel da desigualdade institucionalizada: uma estrutura pública, financiada pelo povo, mas feita para o deleite de poucos. Um novo marco do apartheid urbano em Cuiabá, onde a ostentação se faz com recursos públicos, e a maioria é condenada a assistir de fora.
Quando os motores roncarem sob a iluminação de padrão internacional, lembre-se: essa corrida não é sua — mas a conta, com certeza, é.


