Faltando pouco mais de um ano para o início do processo eleitoral de 2026, o cenário político em Mato Grosso começa a se desenhar com contornos cada vez mais nítidos – e conflituosos. No epicentro das articulações, está o governador Mauro Mendes (União Brasil), que ao mesmo tempo em que encerra seu segundo mandato com popularidade oscilando , se vê pressionado por disputas internas, conflitos partidários e o crescimento inevitável da candidatura de seu atual vice, Otaviano Pivetta (Republicanos).
Pivetta ganha musculatura
A cada dia que passa, o nome de Pivetta se fortalece como favorito à sucessão. O que antes parecia apenas uma possibilidade protocolar – a de um vice naturalmente se lançar ao cargo maior – agora se apresenta como uma candidatura robusta, respaldada por fatores políticos e institucionais:
• A lealdade incontestável ao governador nos dois mandatos;
• A coragem de enfrentar a Operação Suzerano, expondo um possível esquema de desvio de emendas em ONGs e institutos fantasmas;
• O fortalecimento do Republicanos nas eleições de 2024, ampliando sua base de prefeitos e vereadores no Estado;
• E, principalmente, a iminente posse como governador em abril de 2026, quando Mauro Mendes deve renunciar para disputar o Senado.
Com a “caneta na mão”, Pivetta terá o controle do Executivo estadual por alguns meses — o suficiente para consolidar alianças, turbinar sua imagem e assumir, oficialmente, a liderança de um projeto de continuidade que, ao mesmo tempo, marca ruptura com velhas práticas.
Fissuras no grupo de Mendes
Apesar da sintonia institucional entre Mendes e Pivetta até aqui, há claros sinais de tensão nos bastidores. Um grupo político próximo ao atual governador tenta empurrá-lo para os braços do PL, com o objetivo de romper com Pivetta e aderir ao projeto bolsonarista em Mato Grosso. O plano seria rifar o vice e criar uma alternativa palatável à direita.
O fator Cidinho: uma aposta de ala minoritária
Dentro desse esforço de construção de uma terceira via, surge o nome do ex-senador Cidinho Santos, bancado por uma ala minoritária — porém barulhenta — do círculo político do governador. Essa parte do grupo tenta emplacar Cidinho como pré-candidato ao governo, mesmo diante de um cenário jurídico e político adverso.
Acontece que Cidinho está inelegível até janeiro de 2027, conforme revelou recentemente o Blog do Popó. A despeito dessa barreira legal, o ex-senador vem se movimentando nos bastidores, plantando matérias na imprensa local e ensaiando uma narrativa de pré-campanha. No entanto, mesmo que a inelegibilidade fosse revertida, a avaliação corrente é que Cidinho carece de envergadura política e densidade eleitoral para disputar o governo estadual.
É inegável que Cidinho tem talento como animador de governador — especialista em eventos, falas descontraídas e aparições midiáticas. Seu principal dom, aliás, parece ser fazer governadores rirem. Mas falta-lhe conteúdo político, articulação e credibilidade institucional para liderar um projeto de governo em um estado com a complexidade de Mato Grosso. Para aliados mais próximos de Mendes, essa movimentação é vista como uma tentativa artificial de manter Cidinho no tabuleiro, mas sem efetiva viabilidade. Um balão de ensaio que perdeu o ar antes mesmo de subir.
O preço da traição
Mauro Mendes sabe que uma ruptura com Pivetta pode desencadear uma crise sem precedentes. O vice conhece os bastidores do governo como ninguém – tanto a face republicana quanto os episódios menos louváveis da administração. Qualquer tentativa de traição pode resultar em um “tsunami político”, com risco de exposição pública de informações sensíveis.
Além disso, o eleitorado e os partidos aliados esperam coerência e estabilidade. Um racha público seria visto como sinal de fragilidade do projeto que levou Mauro Mendes ao poder e que, até aqui, mostrou resultados concretos na gestão estadual.
A repulsa aos Campos
Outro ponto que une Mendes e Pivetta, apesar das tensões atuais, é a antipatia mútua pelos irmãos Campos – Jayme e Júlio. Ambos têm perdido espaço dentro da máquina estadual e são hoje peças desconfortáveis no xadrez político. Há uma movimentação clara para isolá-los das decisões estratégicas, o que deve se intensificar no próximo ano.
Conclusão: o caminho natural é Pivetta
O PL já deixou claro que terá candidato ao governo, independentemente da vontade de Mendes. No entanto, a via mais sólida e menos conflituosa seria a continuidade do projeto com Pivetta na cabeça de chapa. A lealdade construída, o poder de articulação crescente e a proximidade com o governador o tornam o nome mais lógico para 2026.
A grande dúvida que paira no ar em 2025 não é se Pivetta será candidato, mas como Mauro Mendes lidará com essa inevitabilidade: com inteligência e justiça que reconhece o valor de um sucessor leal — ou com a hesitação de quem teme perder o controle do tabuleiro.
A resposta virá nos próximos meses. Mas uma coisa já é certa: o jogo está em andamento, e o tabuleiro de 2026 começa a se definir agora.
Popó Pinheiro
Jornalista e Gestor Publico